segunda-feira, 19 de julho de 2021

Texto e Contexto - O Grande Ditador (1940)




Provavelmente o maior nome do cinema mudo, Charlie Chaplin tem uma série de filmes memoráveis, você provavelmente já viu pelo menos pedaços de Tempos Modernos (1936) nas aulas de história. Mas hoje estamos aqui para falar do primeiro filme falado realizado por esse gênio cinematográfico. Isso mesmo, senhoras e senhores, O Grande Ditador de 1940.

Abaixo nós colocamos alguns personagens do filme e as figuras históricas com as quais eles pretendem fazer analogia.



Personagem 

Figura histórica

Adenoid Hynkel

Adolf Hitler

Garbitsch

Joseph Goebbels

Herring

Hermann Göring

Napoleoni

Benito Mussolini

OBS: A esposa de Napoleoni é uma representação da real esposa de Mussolini, Rachele Guidi.


Esse filme é um marco do cinema não apenas por ter sido o primeiro filme falado feito por Chaplin, mas por ter sido uma sátira ao nazismo lançada em plena 2ª Guerra Mundial. A sátira como crítica social é um instrumento difícil e delicado de se manusear. Escancarar o absurdo, o ridículo, através do humor é uma arte por si só, capaz de atingir o âmago do orgulho e do ego do alvo da crítica de forma eficaz. Não se trata, portanto, de achar engraçado as monstruosidades de um tirano, ou banalizá-las, mas simplesmente do fato de que retratar uma figura assim de forma patética pode ser um golpe muito mais duro do que retratá-lo de forma assustadora. Afinal de contas, ser amedrontador é o que eles querem.

Era justamente essa a ideia de Chaplin, levar a figura de Hitler ao ridículo, usar o humor como arma para abalar a confiança de um dos maiores ditadores da história. Muitos afirmam que Hitler teria assistido o filme, talvez mais de uma vez, mas pouco se sabe de concreto sobre a reação do ditador. O fato é que o cineasta era considerado um inimigo do Terceiro Reich, e chamado pelos anti-semitas de “judeu” como forma de ofensa. O artista não era judeu, mas nunca rebateu a maneira como era chamado, porque ser judeu não era uma ofensa e era isso que ele queria mostrar; rebater a afirmação simplesmente daria força à ideia de que era algo ruim ser judeu. Inteligente ele, não é? Muito!

E é preciso mesmo de muita inteligência para fazer sátiras. Há dois grandes perigos quando se faz uma sátira. O primeiro deles é ultrapassar aquela linha tênue e de fato banalizar um assunto sério, fazendo com que o tópico seja mais desrespeitoso para as vítimas do que para os algozes. Um exemplo disso seria o filme Deu a Louca nos Nazis (2012), que tenta criar uma comédia através de uma referência totalmente vazia a um regime que causou tamanho impacto negativo na história, usando um humor tosco que mal pode ser chamado de humor.

O outro grande perigo é que a crítica seja sofisticada demais para ser percebida por quem está sendo criticado. Sabe quando você tenta criticar alguém usando ironia, mas a pessoa agradece porque não entende que você estava sendo irônico? É mais ou menos por aí. Nesse caso, corre o risco de reforçar os atos daqueles que estão sendo criticados simplesmente porque eles não têm noção do ridículo. Parece inofensivo? Temos duas grandes figuras recentes que reagiram assim e usaram isso a seu favor… cof cof… Trump… cof cof… Bolsonaro… cof cof. E não foram poucas às vezes que as críticas não foram entendidas nem por quem seria favorável às mesmas. É, gente, fazer sátira é um negócio complicado.

Chaplin já tem todo o mérito por ter feito uma sátira precisa ao nazismo, coisa rara na história. Mas esse mérito é ainda maior se a gente considerar o contexto no qual o filme foi feito. Vocês têm noção que a 2ª Guerra Mundial começou em 1939 e foi até 1945, e o filme foi lançado em 1940? Foi no início do conflito internacional! Foi no ponto alto do Terceiro Heich, e em uma época em que as atrocidades do regime nazista ainda não eram conhecidas em sua plenitude.

Em dado momento do filme, o barbeiro judeu é levado para um campo de concentração junto com um ex-oficial nazista condenado por traição. E lá eles trabalham, trocam de roupa, dormem. Não é que Chaplin tenha negligenciado o fato de judeus e arianos receberem tratamento diferente na sentença ou então tenha tentado suavizar a imagem dos campos de concentração. É simplesmente porque naquela época não se sabia de nada disso, o cineasta não fazia ideia do tamanho dos horrores que aconteciam em solo alemão. E mesmo assim, assistindo hoje o filme, é incrível como a obra segue sendo uma sátira excepcional.

Apesar de ser um filme falado, os diálogos não são o foco. O longa segue na pegada dos filmes mudos, valorizando a expressividade corporal dos atores, enchendo a tela de movimentos amplos e dinâmicos. A fala em si também é frequentemente utilizada desse jeito durante o filme, com alguns diálogos ininteligíveis, que fazem referência a idiomas reais pelos gestos e sons, mas cujas palavras não têm significado em si, e que a intenção é toda desvendada por meio do tom e gestos dos atores. É um recurso pouco frequente de ver no cinema, mas exercício muito comum em aulas de teatro.

Surpreendente é o fato de um filme falado que faz tão pouco uso de palavras culmine justamente em um discurso atemporal. Por anos, Chaplin disse muito, sem falar nada. Mas quando falou, usou sua voz da forma mais sublime. Falou com convicção, com entusiamo. Falou como se não precisasse de ar, como se não precisasse piscar, como se simplesmente precisasse se fazer ouvir. Falou bravamente, alto e bom som, o que muitos não tinham coragem de dizer. E suas palavras ecoariam para sempre na história.


“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse meu ofício. Não quero governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar se possível, os judeus, os gentios, os negros, os brancos… Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Desejamos viver pela felicidade do próximo, não pelo seu infortúnio. Por que devemos odiar os outros? Nesse mundo há espaço para todos. A Terra é rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio, e nos tem feito marchar para a desgraça. Criamos a época da velocidade, mas nos enclausuramos. A máquina que produz abundância, nos tem deixado em penúria. Nossos conhecimentos nos deixaram céticos; nossa inteligência, empedernidos. Pensamos demais e sentimos bem pouco. Mais que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será violenta, e tudo será perdido. A aviação e o rádio nos aproximaram muito mais. A natureza dessas coisas é um apelo à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos. Nesse mesmo instante, minha voz chega a milhares de pessoas, milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir, eu digo: não se desesperem! A desgraça que tem caído sobre nós é o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. O ódio dos homens desaparecerá, os ditadores morrerão. E o poder tirado do povo retornará ao povo. E enquanto morrerem homens, a liberdade nunca perecerá. Solados, não se entreguem a esses brutais que os desprezam, que os escravizam, que ditam suas vidas, seus atos, suas ideias, seus sentimentos! Que os tratam como gado humano, e os utilizam como bucha de canhão. Não se entreguem a esses desnaturados. Esses homens com mente e coração de máquina! Vocês não são máquinas nem gado, são homens! Têm o amor da humanidade em seus corações! Não odeiam! Só os que não se fazem amar odeiam. Ou que não são amados ou são anormais. Soldados, não batalhem pela escravidão! Lutem pela liberdade! Em São Lucas está escrito ‘O Reino de Deus está dentro dos homens’. Não de um só homem ou de um grupo de homens, mas de todos os homens, vocês, o povo, têm o poder! O poder de criar máquinas, de criar felicidade! Têm o poder de tornar esta vida livre e boa, de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da democracia, usemos este poder, unamo-nos todos nós! Lutemos por um novo mundo, um mundo bom que a todos assegure o trabalho, que dê futuro à juventude e segurança à velhice. É pela promessa dessas coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só as mistificam! Não cumprem o que prometem. Os ditadores libertam-se, mas escravizam o povo. Lutemos todos para cumprir essas promessas. Lutemos para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, em que a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!”
 
O discurso de Chaplin é extremamente atual, o que assusta, mas também nos dá esperança. Ele não estava errado antes, e não está errado agora. Os ditadores irão cair, o ódio é a anormalidade no ser humano. Unamo-nos, façamos nossa voz ser ouvida, como Chaplin fez a dele. A solução para os problemas que enfrentamos está dentro de todos nós.

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