domingo, 11 de julho de 2021

1001 versões de… OLDBOY (feat. spoilers)





A trama cheia de mistérios de Oldboy é mundialmente conhecida pelo filme sul-coreano de 2003, mas o longa foi inspirado em um mangá japonês de mesmo nome da década de 90, e também ganhou um remake estadounidense em 2013. E hoje nós vamos falar das três versões!



Conheça as versões:


Oldboy (1996-1998)

O mangá conta com um roteiro de Garon Tsuchiya e arte de Nobuaki Minegishi, e é composto por um total de 8 volumes. Para quem tiver interesse em ler, a editora SAMPA publicou os 8 volumes traduzidos para o português e não é tão difícil encontrar para comprar pela internet.


Oldboy (2003)

O longa sul-coreano, adaptação do mangá, é assinado pelo roteirista e diretor Park ChanWook. Considerado um clássico do cinema sul-coreano, o filme é o segundo da conhecida “trilogia vingança” do diretor, que também conta com os longas “Simpatia pelo senhor vingança” de 2002 e “Lady vingança” de 2005. Os três filmes não têm histórias conectadas, de forma que não há necessidade de assistir em determinada ordem ou mesmo de ver os três. A única coisa que os conecta é o tema mesmo, vingança. Para quem tiver interesse vale a pena dar uma olhada nas plataformas de streaming, a netflix colocou e tirou o longa do catálogo algumas vezes já.


Oldboy - Dias de Vingança (2013)

O longa estadounidense, assinado pelo diretor Spike Lee, é um remake do filme do ChanWook. Então, não há como comparar qual dos dois filmes adaptou melhor o mangá, já que o filme estadounidense traz muito mais referências do longa sul-coreano do que do mangá japonês. Da mesma forma do original asiático, vale a pena dar uma conferida nas plataformas de streaming e ver se atualmente está, ou não, no catálogo. Na data dessa postagem, o filme está disponível na plataforma Telecine.


Principais semelhanças entre as versões:


1 - Alta classificação indicativa

As três versões possuem cenas de consumo de álcool, sexo e violência, o que justifica a elevada classificação indicativa. É comum que remakes ocidentais de filmes asiáticos suavizem as obras, mas nesse caso, Spike Lee preferiu manter a pegada pesada do filme sul-coreano.


2 - O plot base é o mesmo

Um homem que é mantido em cárcere privado por anos até que é solto, e então parte em busca de quem o manteve preso e o porquê.  As três versões têm essa mesma base.


3 - Romance com uma garota mais nova

Assim que sai do cárcere, o protagonista se depara com uma jovem com quem inicia um relacionamento amoroso. E nas três versões, esse romance que parece fruto do acaso, na verdade foi planejado pelo antagonista.


4 - Suicídio do antagonista

Embora o final para o protagonista seja diferente nas três versões, o final do antagonista é o mesmo. Ele aponta uma arma para a própria cabeça e se mata. Nas três versões, o que motiva o antagonista é a vingança, e quando isso acaba, ele não tem mais motivo para viver e acaba se suicidando.


Principais diferenças:


1 - Tempo em cárcere

Enquanto no mangá, o protagonista fica 10 anos encarcerado, no filme sul-coreano ele fica 15 anos, e no estadounidense são 20 anos.


2 - Mortes e cenas sanguinárias

Como dito anteriormente, as três versões têm classificação indicativa alta, mas há variantes nisso. No mangá, a maioria das cenas para maiores são, na verdade, cenas de sexo, e não de violência. O protagonista se envolve sexualmente com mais de uma personagem e ainda há personagens secundários envolvidos em cenas de insinuação de sexo. Os flertes e falas com conotação sexual são tão recorrentes no mangá de Oldboy, quanto as cenas de violência são recorrentes nos filmes de mesmo nome. E quanto a todas aquelas cenas sanguinárias e mortes? Pois é, elas só existem nos filmes. Acredite ou não, no mangá ninguém morre além do antagonista no final da história. E também não tem nenhuma cena de tortura ou algo do tipo. O mangá tem muito sexo e os filmes têm muita morte.


OBS: um fato curioso é que o protagonista se mete em briga com jovens assim que sai do cárcere nas três versões, mas no mangá, a primeira cena que a gente vê sangue não é essa, mas sim a cena de primeira transa do protagonista e seu par romântico, já que no mangá ela é virgem (o que fica explícito pelos diálogos e pelo sangue kkkk)
 

3 - Motivação do antagonista

Agora vem a parte mais irônica de todas… apesar da obra com maior conotação sexual ser o mangá, ela é a única em que a motivação do antagonista para se vingar não tem a ver com sexo. Isso mesmo, povo. A motivação original do mangá não tem nada a ver com a dos filmes, embora ambas as motivações tenham se originado na época de colégio.

No mangá, o antagonista era um jovem calado, estranho e solitário. Durante uma apresentação de canto dele de uma música triste que expressava essa sua essência, enquanto os outros estudantes riam, o protagonista se emocionou e chorou. E você pensa que o antagonista ficou com raiva de quem? Então, ele ficou com raiva do único aluno que não riu dele, o único que se emocionou. E você deve estar se perguntando “POR QUÊ???”. O que o antagonista justifica é que ele sentiu que, nesse momento, o protagonista conseguiu ver a solidão em que o antagonista vivia, e isso fez com que o antagonista se sentisse mal e humilhado por ser visto daquele jeito.

Pois é, o que era uma motivação “suave na nave” no mangá se tornou uma motivação chocante no filme sul-coreano, e ainda mais bizarra no remake estadounidense. No filme sul-coreano, na época de escola, o protagonista flagrou o antagonista transando com a própria irmã. Ele acabou contando isso para um amigo, que espalhou o boato. A coisa cresceu e começaram a levantar a hipótese da menina estar grávida. Desesperada com os boatos, a adolescente sofreu uma gravidez psicológica e se suicidou.

O remake manteve a presença do incesto, mas fez tudo ficar mais bizarro. Isso porque, no longa estadounidense, o protagonista flagra a irmã do antagonista transando com o pai… que também transava com o próprio antagonista. Bizarro, não é? Pois é. O cara transava com os dois filhos que tinha. Enfim, no remake, o protagonista espalha que viu ela transando com um cara mais velho, mas ele não sabia que era o pai dela. Ela ganha fama de vadia na escola toda, a família decide se mudar. O pai deles dá a louca e atira na família inteira e comete suicídio. Só o alecrim dourado do antagonista sobrevive, e parte atrás de vingança.


OBS: Outra diferença marcante é que no mangá, o antagonista não planejou a vingança desde o ocorrido, ou seja, a apresentação de canto. Na verdade, ele viveu a vida dele normalmente por um bom tempo, ganhando todo dinheiro que podia ganhar, mas ficando sempre entediado com isso. Então, essa vingança, na verdade, é um jogo que ele cria mais para ter algo de interessante na vida dele do que para ser uma GRANDE VINGANÇA. Muito diferente dos filmes, em que os antagonistas se sentem profundamente prejudicados pelo protagonista e dedicam sua vida a fazer ele sentir o mesmo.


4 - Comportamento do protagonista

Numa escala crescente de “filhadaputice” teríamos o protagonista do mangá, o protagonista coreano e como vencedor absoluto e completo babaca, o protagonista estadounidense. O protagonista do mangá é um cara gente boa, ele sequer consegue pensar em pessoas para as quais possa ter feito algo ruim. Mesmo no tempo de escola, ele era o raro caso em obras de ficção de aluno popular empático, ele não fazia bullying e não se sentia confortável vendo os outros sofrer bullying. O cara realmente deu azar de cruzar com o psicopata do antagonista. E mesmo quando é solto, depois de ficar 10 f*cking anos preso, sem fazer ideia do que de errado fez na vida pra merecer aquilo… o cara é controlado demais. Ele chega a se preocupar que quem fez isso com ele quisesse mudar a personalidade dele e torná-lo uma coisa que ele não era, alguém irracional, violento. O menos vingativo dos três, ele tenta entender o que aconteceu e é, na verdade, empurrado a seguir o “joguinho de vingança” pelo antagonista o tempo todo, dando a impressão que muitas vezes ele queria, na verdade, era só evitar a fadiga. Enfim, o cara jamais seria um personagem do Park ChanWook.

E por falar nele… o protagonista sul-coreano também não era lá um monstro na escola. Ele era um aluno meio desses que não se espera muito, mas não chegava a ser um delinquente. E quando ele contou sobre o que viu para o amigo, ainda disse “se falar isso pra alguém, eu te mato”. Ou seja, ele não tentou expor o antagonista ou algo assim, ele fez uma fofoquinha com o melhor amigo… o que acabou fazendo a vida dele se tornar um inferno. Então, antes de fofocar se pergunte “isso pode tornar minha vida um inferno?” HAHAHAHHAHA. Depois de solto… ele é o mais pirado de todos. Ele fica lelé da cuca, o que me parece bem realista considerando o contexto. E também se torna violento e é o mais vingativo dos três. Ele até chega a ir atrás pra ver onde a filha está, mas o foco dele é vingança, vingança e vingança. Mesmo quando parece que o jogo está terminado e ele não teria mais motivo para ir atrás do antagonista, ele vai sim atrás, porque ele quer se vingar dele… o que acaba sendo terrível… como em todos os filmes da trilogia vingança do Chanwook… a vingança não compensa.

Já o protagonista do remake segue meio que o modelo estadounidense de trajetória da redenção. Ele é um babaca completo, passa 20 anos preso, e saí de lá um ser humano melhor! Violento e vingativo, mas melhor. Na adolescência, ele era o típico bully, perturbou muito a irmã do antagonista. E mesmo na vida adulta o cara é um completo babaca. Mas os 20 anos preso faz com que ele deseje se tornar uma pessoa melhor, provar sua inocência e ganhar o perdão da sua filha. E ele é levado até o fim desse joguinho do antagonista não porque quer desesperadamente se vingar, mas porque acredita que a vida de sua filha está em risco.


5 - O romance


Nas três versões, o antagonista planeja que o protagonista se envolva com uma garota mais jovem. Nos dois filmes, lembrando a motivação da vingança e a história do incesto e tal, essa garota é a própria filha do protagonista. Sim, porque ele quer que o protagonista sinta na pele, o que ele sentiu, estar envolvido em um caso incestuoso. Já no mangá, a garota não é parente dele nem nada, eles nunca nem se viram na vida antes. O protagonista nunca foi casado ou teve filhos. Então, por que o antagonista planejaria que eles se apaixonassem?  Porque o antagonista queria que ele sentisse a mesma solidão que ele sentiu, e amar alguém e a possibilidade de perder aquela pessoa faria com que ele sentisse isso.

No mangá e no filme sul-coreano, a técnica de hipnose é a chave do romance. No longa estadounidense, embora haja uma cena que dá aquela vibe de hipnose (a cena do guarda-chuva amarelo girando sobre o protagonista no início do filme), o foco está na criação da garota. O antagonista faz com que ela tenha uma criação que a leve a se atrair por pessoas como o protagonista. Talvez por isso, no mangá e no filme sul-coreano o envolvimento romântico se dê mais rápido, do que no longa estadounidense.


6 - O final


O momento mais aguardado por todos… o grande final! Como eu já disse, após a verdade revelada, o antagonista se suicida nas três versões, mas o final do protagonista é totalmente diferente em cada uma delas.

O protagonista do mangá se casa e forma família com a jovem pela qual se apaixonou. Parece um final feliz perfeito, não é? É, mas não é bem assim. Isso porque, no mangá, a jovem sofreu um hipnose dupla. Uma para que ela se apaixonasse pelo protagonista, e a outra…. ninguém sabe. E está aí o tormento. Sabendo que o antagonista queria que ele se sentisse solitário, o protagonista tem medo que a hipnose oculta seja para que sua amada se suicide. E ele não pode reverter e não sabe qual é o sinal que servirá de gatilho para que se complete a ação. Pensar que um som qualquer pode matar a mulher que ele ama é um tormento e tanto. Então, embora seja o final mais feliz dos três, ainda não é o melhor cenário, não é?

No longa sul-coreano, o protagonista corta a própria língua ao implorar ao antagonista que poupe sua filha. Ele então escreve uma carta pedindo para a hipnóloga o hipnotizar novamente para que ele consiga viver sem ter todo aquele horror na cabeça dele. Ela alerta que não é garantido que a hipnose funcione, mas aceita. Termina com ele e a filha abraçados, e a gente não sabe se funcionou ou não.

No remake, o protagonista também implora para que a filha seja poupada, mas não arranca a língua nem nada. Ele escreve uma carta para ela dizendo para que ela siga a vida e se apaixone por um homem bom, e entrega parte dos diamantes que ganhou do antagonista a ela. Com o restante ele paga para ficar pelo resto da vida em cárcere privado no mesmo lugar onde ficou preso por 20 anos.



Os acertos e os erros:


As três versões têm finais diferentes e interessantes! O que não é muito comum.


As referências do remake americano ao longa sul-coreano são muito bacanas, como o guarda-chuva amarelo com os traços marcando os anos, como o close no polvo no aquário, ou a garota asiática com asas de anjo.


O filme asiático mantém a narrativa presente no mangá, o que, ao meu ver, ficou melhor no filme do que no mangá. Isso porque no mangá, a narração do protagonista parece uma narração impessoal qualquer, enquanto no filme de Chanwook a narrativa é mais carregada de emoção.


O filme sul-coreano também elevou o nível da história do mangá, tanto em termos intelectuais, quanto sentimentais. Muito do que acontece no mangá parece meio mirabolante e aleatório, e os personagens são um tanto superficiais. Embora o remake se esforce, não chega nem perto da qualidade do filme coreano e tem, na minha opinião, o pior vilão de todos. Ele é caricato e as cenas em que está envolvido não ajudam (como aquela cena tenebrosa em que cada cômodo que o pai entra, um membro da família já vai se despindo). E lembrando que o vilão do mangá tem umas técnicas tipo cirurgia plástica pra mudar a aparência, telefone que muda a voz, fantasia de velhinha… e mesmo assim, eu acho o do remake mais caricato!


Os filmes têm um começo meio arrastado, mas o mangá é praticamente todo assim. A gente sente que nunca chega em lugar nenhum, e quando chega não é bem aquele clímax que esperávamos por toda a demora. Acaba sendo chato de ler. E tem muitos, muitos diálogos que não levam a lugar nenhum. Além disso, o interesse amoroso do protagonista tem aquele jeito meio infantil saltitante de personagem de anime que não combina muito com a história e não traz tanto carisma, quanto as personagens dos filmes.


Versão favorita:

Não tem jeito. A mais perturbadora, poética e memorável das três… o filme sul-coreano de 2003! A direção do Park Chan-Wook é impecável e até a trilha sonora do filme fica ecoando na cabeça depois que a gente assiste. Simplesmente genial! E você? Concorda? Discorda?





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